História

SANTA CASA DE PATROCÍNIO, UMA TRAJETÓRIA DE CONQUISTAS

A primeira Santa Casa de Misericórdia surgiu em Lisboa, em 15 de agosto de 1498, com a criação da Irmandade de Misericórdia, entidade com fins humanitários, patrocinada por Dona Leonor de Lencastre (a mais rica rainha da Europa na época), viúva de D. João II de Portugal, que após a perda do seu único filho e herdeiro do trono em um acidente (1491), dedicou a sua vida e toda a sua fortuna à assistência dos desafortunados. Esta Irmandade constituída por 300 membros, metade nobres e metade plebeus, introduziu na época uma visão mais sensível e humanitária do mundo, originando um número cada vez maior de Casas de Misericórdias por todo o país e expandindo-se para além-mar, para as terras sob domínio dos portugueses.

A história das Santas Casas no Brasil iniciou-se em 1539, com a fundação da Santa Casa de Olinda (PE) precária construção de taipa, coberta com folhas de palmeira erguida para acolher enfermos, enjeitados e marginalizados (crianças e velhos) e os excluídos do convívio social (criminosos doentes, doentes mentais). A ela sucederam-se as Santas Casas de Santos (1543), Salvador (1549), Vitória (1551), Rio de Janeiro (1582), São Paulo (1599), João Pessoa (1602), Belém (1619), São Luís (1657) e Campos (1792); todas se regiam pelos estatutos das Santas Casas portuguesas e não possuíam nenhum grau de subordinação entre si.

Atualmente as Santas Casas somam mais de 2500 hospitais, espalhados em todo o território nacional, responsáveis por cerca de 50% do número de leitos hospitalares existentes no país. O estado de Minas Gerais possui 331 e uma delas é a SANTA CASA DE PATROCINIO. O que teríamos hoje, se em 1934, pessoas que pensavam o bem-estar social não tivesse tido a iniciativa de criar esta entidade? Em que situação estaria o “negócio” saúde na região? Ter apenas clínicas e hospitais particulares supriria, com eficiência, a lacuna da inexistência de um hospital geral do porte da Santa Casa? O que ela representa para você e sua família? São muitas as indagações e o que queremos é levá-lo (a) a perceber a importância da ação de nossos antepassados e o peso que hoje tem o patrimônio que eles começaram a construir e aos quais outras mãos, com carinho e responsabilidade, cuidaram, fortalecendo-o e conduzindo-o até os nossos dias.

A “gestação”, ou seja, o período que decorre da primeira ação concreta à inauguração, foi demorada. Começou em 1905, com o Professor Olímpio Carlos dos Santos doando a importância obtida (vinte contos de reis) com a venda de um teatro, imóvel de sua propriedade que ficava próximo onde hoje se situa o Instituto Bíblico Eduardo Lane, para dar início à construção da Santa Casa.

Após este ato, o Sr. João Cândido de Aguiar, um dos nomes mais ilustres da história patrocinense, juntamente com o Sr. Lício de Faria Pereira ficaram encarregados de angariar donativos. Paralelamente, houve uma movimentação popular intensa e bem organizada cujo objetivo era apoiar e ajudar na obtenção dos recursos necessários para a realização do grande sonho. Uma das ações para obter recursos, por exemplo, foi uma seção de cinema falado, cuja renda foi totalmente repassada para a fundação.

Nasce assim a Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora do Patrocínio que funcionou inicialmente como asilo já que, naquela época “asilo” e “hospital” em muito se assemelhavam. O jornal “A Lixa”, de 08/06/24, traz em suas páginas a composição da primeira diretoria constituída que tinha como presidente o Major Tobias Batista de Miranda Machado, Bernardino Machado (vice-presidente) e o Coronel João Candido Aguiar como tesoureiro. Dr. Honorico Nunes foi o Diretor Clínico e Dona Ana Marra, que morava em uma pequena casa nos fundos, cuidava da Instituição. Como todas as Santas Casas a nossa se estruturou juridicamente com uma entidade mantenedora que se denomina “Irmandade Nossa Senhora do Patrocínio”, com fortes laços de união da fé e nos princípios religiosos. Os cidadãos que aderiram eram “irmãos” e agiam como tal na busca de prover a Santa Casa de todas as suas necessidades.

As dificuldades de fazer funcionar uma Santa Casa em uma pequena cidade interiorana continuaram devido a problemas operacionais e financeiros, mas não foram maiores que o sonho e a determinação daqueles que a ergueram e de novos sonhadores que aqui chegaram. Jovens médicos iniciavam suas atividades na cidade como Dr. Amir, Dr. Brandão e Dr. Figueiredo inicialmente e algum tempo depois Dr. Queiroz, Dr. Ocacyr, Dr. Gilson, Dr. Latif, para se citar apenas alguns que iniciavam ou deram continuidade as suas atividades profissionais naquela época. Eles tinham condições se resolver os problemas de atendimento para o bom funcionamento da Santa Casa, agora como um verdadeiro hospital. Sabiam também que a abertura da Santa Casa era possível e também necessária para a comunidade e que eles necessitam dela e queriam a incluir nos seus sonhos pessoais de exercer a medicina com qualidade e recursos hospitalares. Os três primeiros, especialmente o Dr. José Garcia Brandão, se juntaram, em 1936 ao Cel. João Candido de Aguiar, que era uma liderança forte e respeitável e que também se sentia fortemente comprometido com a Santa Casa que ajudara a fundar e que ora encontrava-se sem funcionar. A eles juntaram-se muitos outros homens de bem para prover recursos que possibilitassem a reabertura da Santa Casa e mecanismos que viabilizassem o seu bom atendimento. Para prover recursos financeiros o Cel. João Candido de Aguiar fez uma substancial doação pessoal de Rs 20.000$000 (Vinte contos de reis) e usando o seu o de todas as outras lideranças políticas de cidade naquela época conseguiram junto ao Dr. Antônio Carlos, então Presidente do Estado de Minas Gerais (antiga denominação do cargo de Governador do Estado) a importância de Rs 50.000$000 (Cinquenta contos de reis) com os quais foram construídos o bloco cirúrgico e a cozinha encerrando assim um período de quase dez anos nos quais a Santa Casa permaneceu fechada.

Em setembro de 1938 acontece o tão esperado momento que no Convite de Inauguração consta como o “grande e auspicioso acontecimento, um dos maiores na história de nossa querida terra Patrocínio (...)”, “... um passo gigantesco para o progresso que dá a nossa cidade, preenchendo assim a grande lacuna existente, que era a falta de uma SANTA CASA...”. O parágrafo seguinte deste convite enaltece o trabalho empreendido ao ressaltar que “a SANTA CASA é o fruto laborioso de sua gente trabalhadora e empreendedora, que tudo faz para ver a sua terra grande, próspera, feliz, cheia do conforto para o bem comum da humanidade”. Inaugura-se então a Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora do Patrocínio, no dia 7 do referido mês, com missa (às 8 horas da manhã) na capela da Instituição, e logo após sessão solene com discurso do orador oficial e abertura do prédio para visitas até às 6 horas da tarde. Às 8h30min da noite foi exibido um filme escolhido em benefício da Santa Casa. Cada linha do convite revela o entusiasmo e a sensação de ter vencido “uma grande batalha”. É a voz de um povo vitorioso!

A reunião oficial de reabertura aconteceu no Cine Triângulo, no dia 15/04/38. Nesta reunião aprovou-se também o primeiro Estatuto Santa Casa. Foi constituída, nessa ocasião, a nova diretoria que teve como provedor o Sr. José Thedim de Siqueira, como tesoureiro o Sr. Joaquim Antônio Dias, o Sr. Octávio Alves de Brito como síndico e como Diretor Clínico o Dr. Gustavo Machado que, em 1939, renunciou ao cargo e foi substituído pelo Dr. José Garcia Brandão que permaneceu neste cargo praticamente durante quase toda a sua vida com grandes e relevantes serviços prestados. Às irmãs Aurea e Mercedes, que vieram trabalhar na Santa Casa, se junta, pouco tempo depois, a Irmã Maximiliana que, enquanto viveu foi um sinônimo da Santa Casa pela sua dedicação a instituição, pela sua firmeza, pela sua simpatia e compromisso com o amor ao próximo especialmente aos doentes, fruto de seu compromisso de viva religiosa, mas principalmente fruto do seu coração generoso. Nesta época as Irmãs representaram importante papel no funcionamento da Santa Casa, pois eram a base da enfermagem e da administração da instituição. Muitas passaram pela Santa Casa no período sendo importante se destacar a figura impar da Irmã Renata responsável pela enfermagem e pela sala de parto já que era formada nesta especialidade no seu país de origem, a Bélgica, mas cujo curso não era reconhecido no Brasil. Nestes períodos heroicos a qualidade da enfermagem da Santa Casa sempre foi um destaque graças a presença das irmãs, em especial da Irmã Mária, que foi importante no processo de modernização e humanização da Santa Casa, especialmente da sua enfermagem, até se retirar da instituição. Ela continua oferecendo a sua experiência e competência como Diretora do Curso de Enfermagem no Colégio Berlaar. Vale também se mencionar a figura impar do Padre Wilibrordo que foi por longos anos e até o seu falecimento o “capelão” da Santa Casa. La morava e oferecia a todos o conforto e o entendimento nos difíceis momentos em que somos acometidos pelas doenças.

Nestes tempos o Provedor era um cargo praticamente sem nenhuma função na direção executiva, mas era uma pessoa de grande respaldo junto a sociedade cabendo lhe conferia credibilidade e respaldo a instituição devido a sua honradez e presença marcante na sociedade patrocinense. Mas há que se destacar a figura impar do Cel. José Francisco de Queiroz, Provedor da Santa Casa durante mais de vinte anos. A ele se sucedeu outros grandes patrocinenses como o Sr. Gentil Nascimento e o Sr. João Alves de Queiroz. Observação interessante desta época até a criação do SUS (Serviço Único de Saúde) é que cada médico da Santa Casa atendia gratuitamente doze pacientes pobres que eram encaminhados pela Sociedade de São Vicente de Paulo. Esta particularidade serve bem para se ressaltar o compromisso que sempre houve da Santa Casa com a comunidade onde se inseriu e comunidades vizinhas que, em formato diferente, continua existindo até os dias de hoje e certamente existirá nos dias futuros.

As décadas de 70 e 80 foram marcadas por grandes, importantes e necessárias transformações estruturais na Santa Casa. Logo no início da década de 70 aqui esteve um voluntário do “Corpo da Paz”, que era um organismo do Governo dos Estados Unidos destinado a auxiliar os países pobres na melhoria da gestão de suas organizações especialmente aquelas do hoje chamado “Terceiro Setor”. Dentro deste projeto o técnico Michael Cnosen veio e aqui permaneceu por um período de pouco mais de um ano analisando e propondo ajustes gerenciais para melhorar a gestão do hospital iniciando assim o início de um período de maior preocupação com uma gestão especializada.

Novas especialidades médicas vieram, a clausura (residência das freiras) é transferida para o Patronato, a capela que funcionava onde hoje é o ambulatório foi transferida para o ambiente menor a mais acolhedor onde hoje se encontra, tudo a fim de abrir mais espaço para os serviços que estavam sendo instalados, reformas localizadas com o intuito de melhorar a fachada e a recepção, e construção dos apartamentos particulares. A consciência de responsabilidade, a seriedade, a humanidade foram características marcantes das diretorias que por aqui passaram e propiciaram o crescimento, credibilidade e o fortalecimento da entidade.

Até esta época o Diretor Clínico era quem verdadeiramente conduzia e promovia a expansão da Santa Casa e o Dr. José Garcia Brandão deu início ao processo de modernização ao buscar recursos, finalmente obtidos através de um financiamento junto a Caixa Econômica Federal, para a ampliação do prédio da Santa Casa. Continuada pelo Dr. Ocacyr de Siqueira, nos anos seguintes, concluiu e entregou a comunidade o prédio novo assim como hoje conhecemos.

Neste mesmo período foi eleito Provedor o Sr. Maurício Carvalho Brandão que permaneceu à frente da Santa Casa por longos anos. Neste período a estrutura e a governança foram muito modernizadas e profissionalizadas. A primeira grande reestruturação foi precedida por longas e amplas consultas e debates que envolveram o maior número de pessoas. Os debates se estenderam durante a assembleia da Irmandade em uma penosa e memorável reunião realizada no recinto da Câmara Municipal de Patrocínio. Finalmente aprovadas elas marcaram o inicio da grande e permanente modernização pela qual passa a Santa Casa. Nesta reunião foi criado um Conselho Superior e um Conselho Diretor.

Posteriormente o Conselho Diretor foi extinto e o Conselho Superior transformado no Conselho de Administração com as funções que tem até hoje de determinar e orientar as diretrizes a serem seguidas e conduzir o processo de governança e a supervisão das atividades, profissionalizando total a gestão.

Assumindo a provedoria, no início dos anos 90, Dr. José Carlos Grossi reformou e reestruturou a parte antiga, construiu a lavanderia, cozinha e o almoxarifado. Foi criada e implantada a Enfermaria de Saúde Mental. Também nesta década, houve o início da gestão especializada, com investimentos direcionados à formação, treinamento e capacitação dos recursos humanos. A Santa Casa iniciava sua caminhada rumo a autogestão, única saída para a crise que começava a ameaçar as entidades filantrópicas de saúde no país.

Assumindo a provedoria no ano de 1995, Dr. Joaquim Teobaldo deu continuidade ao processo intensificando o trabalho de integração entre irmandade, corpo clínico e administração da entidade. Fortaleceu diálogos, buscou parcerias e colheu resultados.

No novo milênio, sob a provedoria do Sr. José Manoel de Souza várias modernizações aconteceram. Várias melhorias na infraestrutura como a reforma e ampliação do Bloco Cirúrgico, a aquisição dos aparelhos de tomografia e mamografia e aquisição do gerador próprio de energia foram grandes conquistas. Um momento de intensa alegria para a família Santa Casa, aconteceu no dia 12 de setembro de 2003, com a inauguração da Unidade de Tratamento Intensivo Adulto.

Em 2006, o Sr. Adão de Arvelos Peres estava na provedoria da Santa Casa, quando a entidade aderiu ao PRO-HOSP, programa que visa a implementação de ações tem por finalidade o fortalecimento e a melhoria da qualidade do atendimento hospitalar da rede do Sistema Único de Saúde. No mesmo ano foi criado também o Plano Diretor Plurianual e introdução da gestão estratégica - planejamento estratégico com o envolvimento de todos os setores e monitoramento de um Grupo Gestor formado por funcionários e a alta administração. Foram criadas comissões internas para gerenciamento de serviços importantes para a qualidade e segurança do atendimento realizado. O hospital torna-se referência regional e é reconhecido através de várias premiações.

Em 2007, no mandato do provedor Sr. Luiz Eli Caixeta, o Centro de Diagnóstico da Santa Casa passou por ampliação e reforma. Já nesta época o centro de imagens disponibilizava os exames de tomografia, mamografia, radiologia, ultrassonografia, endoscopia e colonoscopia. No mesmo mandato, houve a aquisição do tomógrafo, do aparelho de ultrassonografia, a reforma no setor de leitos e na ala psiquiátrica. Também foram iniciadas ações para a implantação do serviço de hemodiálise, como a aprovação do projeto arquitetônico, aquisição de equipamentos, contratação de recursos humanos, entre outras.

No mês de junho do ano de 2009, o Sr. Ricardo dos Santos Bartholo assumiu a provedoria. No decorrer de três mandatos, em meio a diversos desafios, várias conquistas foram alcançadas, como a concretização do Centro de Hemodiálise, Centro Médico, Unidade de Terapia Intensiva Neonatal e ampliação da Unidade de Terapia Intensiva Adulto.

Na Assembleia Geral Ordinária de 2015, os seguintes 15 cidadãos da irmandade foram eleitos e empossados: Altair Olímpio de Oliveira, Dr. Carlo Nansen Rossi, Dr. Carlos Alberto Pinto, Cristina Akemi Myaki Grosskpf, Fernando Ramos Bernardes Dias, Geraldo Eustáquio de Miranda, Joaquim Garcia Morato Filho, José Carlos Dias, José Manoel de Souza, Lázaro Ribeiro de Oliveira, Maristela de Fátima Brito Borges, Maurício Carvalho Brandão, Nelson Gonçalves Soares Filho, Dr. Ocacyr de Siqueira, Ricardo dos Santos Bartholo. Sendo eleito para Provedor, o Sr. Joaquim Garcia Morato Filho, para Vice-Provedor, a Sra. Cristina Akemi Myaki Grosskpf, e Secretário, o Dr. Carlo Nansen Rossi. A Santa Casa está em acelerado processo de expansão, este avanço tem sido possível através de parcerias, convênios, apoio de lideranças políticas e aplicação de recursos próprios.